sábado, 3 de setembro de 2011

127 horas

Assisti ao filme '127 horas' com receio que a cena da amputação do braço, filmada com realismo, não faria bem para o meu estômago. Mas não foi o corte que me deixou pensativa, e sim a amputação.

Penso que o corte faz parte da solução, e não do problema. São cinco minutos de racionalidade, bravura e dor extrema, mas é também um ato de libertação, a verdadeira parte feliz do filme, ainda que tenhamos dificuldade de aceitar que a felicidade pode ser dolorosa.

Lógico que é improvável que o que aconteceu no filme aconteça conosco também. Mas metaforicamente, em muitos momentos da vida conhecemos experiências de ficarmos com um pedaço de nós aprisionado, imóvel, apodrecendo, e impedindo a continuidade da vida. Provavelmente todos nós temos uma grande rocha para mover, e não conseguindo movê-la somos obrigados a uma amputação dramática, porém necessária.

Estou falando de amores paralisantes, profissões que não dão certo, laços que tivemos que abandonar, traumas que causaram um vazio. As mutilações escolhidas, o toco de braço que temos que deixar para trás afim de começarmos uma nova vida. De tudo que é nosso, mas que tem que deixar de ser, na marra, em troca da nossa sobrevivência emocional. E física também, já que a insatisfação é algo que debilita.

Às vezes o músculo está estendido, espichado, no limite: há um único nervo que nos mantém presos a algo que não nos serve mais, porém ainda nos pertence. Fazer o talho machuca, dói de dar vertigem, de fazer desmaiar. E dói mais ainda porque se sabe que é irreversível. Que a parir dali a vida começará com uma ausência.

Mas é isso ou morrer aprisionado por uma pedra que não vai se mover sozinha. O tempo não vai mudar a situação. Ninguém vai aparecer para salvar-nos. 127 horas, 720 horas, 8.640 horas que se transformam em anos.

Acho que todos temos um cânion pelo qual nos sentimos atraídos e do qual precisamos escapar para continuar vivendo.


*Música: Legião - Há Tempos




quarta-feira, 3 de agosto de 2011

solidão a dois

Nasci para poucos e morro por ninguém além de você. Me confundo em passos de dança invisíveis, enlaçando pernas e fazendo caras e bocas, querendo muito e gostando pouco. Não é insatisfação ou sofrimento, é só um tudo-ao-mesmo–tempo-agora que não respeita amor de menos, não aceita um gostar pouco e querer às vezes. Uma intensidade que não se conforma com noites únicas de começo, meio e fim. Estou aqui pela música, pela companhia, pra me encontrar.

Eu quero mais de cada coisa que a existência oferece.

Essa prisão, essa pele. Estou vazando pelos poros e parece que vou explodir. E se algum buraquinho entupir e eu não achar a saída? Meu corpo é muito pequeno e minha procura pela liberdade queima as beiradas. Minha alma vai escapando e se moldando. Se esconde, diminui pra não se mostrar além.

Os risos forçados que geram lágrimas no travesseiro, as danças vazias que geram um vazio ainda maior. A mentira que preenche de ar o que devia ser companhia. A amargura que cresce por coisas pequenas e afáveis dos que são capazes da felicidade.

Eu não quero nada impossível. Só quero realidade. Quero alma e vida de verdade.


terça-feira, 5 de julho de 2011

lembranças machucam, as boas, mais ainda


Existem desgraças que quase esperamos na vida. E existem momentos sombrios, que mudam tudo. Existe a minha vida antes da tragédia. Existe a minha vida agora. As duas têm dolorosamente pouco em comum.

Gostaria de poder contar que, através da tragédia, descobri algum princípio absoluto, desconhecido e impactante que eu pudesse transmitir. Não foi o que aconteceu.

Os clichês são todos válidos - o que realmente conta são as pessoas, a vida é preciosa, o materialismo é valorizado demais, as pequenas coisas são que importam, viva o momento -, e posso repeti-los exaustivamente. Você pode até ouvir, mas não vai internalizar o que eu disser. A tragédia é pessoal. Ela fica gravada na alma. A gente deixa de ser feliz. Mas se transforma numa pessoa melhor.

É isso que as pessoas não conseguem entender, a fragilidade do mundo. As feridas que uma guinada do destino é capaz de abrir. O poço de desespero que somos jogados por causa de um descuido qualquer. A irreparabilidade das coisas.

O tempo cura a maioria das feridas. As demais ficam escondidas atrás da porta do esquecimento.


domingo, 5 de junho de 2011

felizes os esquecidos...

Percebo o peso das coisas que vivi quando sinto em minha mente a presença de cada vez mais pensamentos aos quais eu não consigo dar vazão. Nunca tive facilidade na hora de traduzí-los em parágrafos e, certas vezes, quando finalmente absorvo um assunto, sou atropelada pela urgência de uma vida que sou obrigada a viver, do abrir ao fechar dos olhos.

Muitas vezes abandonei em branco o texto, pois olhava para dentro de mim e nada via senão a nebulosa sombra do vazio que ainda grita alto.

Desabafar por escrito, mesmo que antes para um destinatário ausente, é confortante, justamente quando não me servem mais as opiniões sinceras. Me ver imperfeita e incapaz, e escrever sobre isso, é o que me impede de desmoronar.

Escrever torna tudo real. E, por isso, as vezes prefiro fugir dos fatos, do futuro, das afirmações lógicas, mas injustas. Tem dores que não devem ser verbalizadas. Tem dias que não devem ser escritos.

Tem um dicionário inteiro de termos não existentes para falar sobre mim. Não sei o que, não sei o motivo, não sei como. Não me importo. Apenas sou, e isso deve bastar.

Todos os sentimentos sinceros só são sinceros pelo tamanho da verdade, e pela vontade de dizer sem motivo e mil vezes.


Musica: Pink Floyd - Take it Back

http://www.youtube.com/watch?v=7LYfUtRSZ5I


sábado, 30 de abril de 2011

tenho escrito menos...



... e sentido mais.

Eu vi nossos olhares se encontrando. E não apenas se encontrando, também se confortando, se completando, se desejando e se protegendo. Só pela cumplicidade dos nossos olhos, que deixaram de ser dois e se enlaçaram quatro. Eu soube então que nós não nos sentimos sozinhos e perdidos. E mesmo depois de um dia cheio e chato, tem uma certeza de afeto. Uma espera no fim do dia. Essa espera. Não a espera de uma vida toda sem saber o que buscar pra ser feliz.

E é isso que nós temos pra vida toda, algo além da rotina e de gente inventada com seus narizes perfeitos e cabelos arrumados. Uma fonte segura de amor que não depende das obrigações, das falas decoradas, dos scripts prontos. O frio na barriga, a anorexia que o amor dá na gente.

Temos o dormir tarde, e o acordar atrasado pra começar tudo de novo, só pra começar o dia nas nuvens. Temos algo certo como o olhar de fogo, a risada por nada, e a lágrima que cai na cumplicidade dividida. Algo errado que nos faz bem só por escapar do caminho evidente de sempre. Só sair do igual pra ter algo diferente. E tornar esse diferente comum só porque é bom estar perto.

Nada é mais infinito que o que se sente e não se vê.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ain't no need to go outside

Vamos nos atrasar. Por causa da chuva, da preguiça, por causa da saudade. Tem um mundo todo de gente lá fora que pouco importa, e pouco se importa. Vamos nos atrasar por querer mais de nós dois.

Fica mais um pouco e me deixa fazer parte da sua vida. Quero o seu dia-a-dia na minha rotina e seu colo pra dormir. Quero nossos assuntos em pauta e nossa falta fazendo companhia. Eu quero mais que solidão a dois e inseguranças tristes para preencher o cotidiano. Quero mais que sorrisos inconvincentes e amizades convenientes. Eu quero menos. Menos pensamento, menos medo.

Vamos nos atrasar, deixar o mundo acontecer lá fora enquanto a gente discute bobeiras inexplicáveis. Esqueça a música alta, esqueça as pessoas e seus cumprimentos tediosos, deixa tudo pra lá. Tudo o que a gente precisa está aqui. Tem eu, tem você, tem uma vida inteira de nós dois. E isso é tudo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

um post pra você


Porque seus olhos são azuis e dá vontade de mergulhar.

Você fez eu me sentir alguém, exatamente um alguém que eu sou. Acho que isso pode ser um sinal. De fraqueza ou de destino, eu não sei. Existe mesmo essa coisa de destino? Porque os nossos se cruzaram e talvez isso tenha algum significado.

Pode ser a dúvida entre manter a solidão ou se arriscar. Acho que toda essa história tenha se desenvolvido nos segundos em que eu fechei os olhos e não precisei abrir pra saber que você estava lá.

Parecemos mútuos no desejo de viver pra sempre no agora só pela companhia maravilhosa. Talvez fosse a exata sintonia, do exato alinhamento, da exata fração de segundo que motivasse duas presenças tocadas dessa maneira. E se existir um próximo encontro, por mais breve que seja, será só pelo encanto do sorriso mais sincero do meu caminho.

O tempo é relativamente compensado por registrar pequenos momentos em grandes confirmações.

Vem me buscar, me leva pra longe daqui.


Música: Phoenix - Rome

http://www.youtube.com/watch?v=vI3Hplk9Za8&feature=related