segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

algo que jamais se esclareceu

Se sua partida é mesmo inevitável, se seus sonhos são mesmo indispensáveis, se sua vida é mesmo impenetrável, então vá. Não permita que eu me apegue e faça planos, não me deixe acreditar no que não há de verdade. Vá logo antes de borrar minha maquiagem e ferir minha coragem, antes que eu acabe com meus instintos de sobrevivência como se não importassem mais meus sentimentos próprios. Não provoque meus medos, não destrua meu equilíbrio. Apenas vá. Não me deixe criar um relacionamento individual onde eu sou todos os personagens e nenhum ao mesmo tempo, enquanto você é a platéia que faz questão de não aplaudir minhas fragilidades teatrais.

Você que preenche minhas lacunas de medo deve ter um longo caminho de volta pro seu ser, enquanto eu sobrevivo de te esquecer daqui a pouco. Se minhas palavras não fazem sentido e confundem sua mente, nem peço lucidez. Eu sei que você gosta de estar entorpecido pra esquecer seus problemas ao invés de resolvê-los. Mas não ignore o que eu sou por não ter forças para me decifrar. Já que dividimos um pavor doentio da alegria, podemos partilhar o pânico de sorrir até que a tristeza não faça mais sentido a dois.

Se sua partida é mesmo inevitável, se seus sonhos são mesmo indispensáveis, se sua vida é mesmo impenetrável, ao menos arrisque me carregar junto de você.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

se bastasse sentir...

Não me lembro como eu era antes de você.

E agora sou alguém que se apaixonou, e se entrega e morre um pouco todo dia, só pra saber que viveu pelo menos um pouco.

E agora tudo anda pela metade, as alegrias não passam de algumas horas em boa companhia, mas no escuro do quarto não há nada mais que um quarto no escuro.

E agora eu durmo sozinha e tenho um vazio no peito você não tem vontade de ocupar. Tenho um coração pesado que você não quer carregar. E estou cansada de esperar vidas se resolverem por uma promessa de futuro e ficar pra trás mais uma vez.

Só não me deixe morrer em você, porque em mim você vai continuar vivendo.

Quero de volta tudo o que um dia foi meu. Quero pra mim. Pra guardar. Pra ter. Pra ser.


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

agora conta como hei de partir


Cansei. Desisto. Me rendo. Levanto a bandeirinha branca.

Não estou deixando o inimigo ganhar, nem estou perdendo. Estou deixando o campo de batalha. Estou saindo de fininho, a procura de um lugar ao sol.

Enfrentar às vezes é muito mais que levantar os punhos e lutar, às vezes é muito mais que bater, é ceder, é seguir, é calar, é vencer sem ferir, é evitar a luta vã, a insana discussão.

Desistir e perder são condutas diferentes. As vezes perder é ganhar, as vezes perder é perder. As vezes desistir é perder, as vezes desistir é dar uma nova chance ao destino.

De vez em quando, quando fico sozinha pensando, eu sinto falta da vida, eu vejo o futuro, o passado, eu sinto a dor como uma ferida aberta no joelho, que dói mais a cada passo.

Meus sonhos de criança são apenas sonhos, meus pesadelos são memórias e medos, e ainda tenho medo. Quando criança, aprendi a rezar pra me livrar dos pesadelos, por um tempo funcionou, mas agora, a fé que me leva nem sempre é maior que o medo que me arrasta, eu tento, todo o tempo, eu tento não esquecer, e tento acreditar que apenas acreditar é o suficiente.


Música: Chico Buarque - Eu te amo


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

I miss you

Sentir falta é diferente de sentir saudades. Sentir saudades é grandioso. Dor enorme que rasga por dentro dias seguidos, horas intermináveis, tempo infinito.

Sentir falta não. Sentir falta é pontual. Sentir falta é dor fina, dor de beliscão com unha, dor de mordida de cachorro. Sentir falta é mais específico. Sente-se falta do abraço ao dormir, das mãos frias, sente-se falta do jeito boboca que ele tinha de andar. Sentir falta é mais egoísta, quase que material. Sentir falta do café dele, da bagunça dele, o chinelo dele. Sentir falta da camiseta velha dele que você podia usar. Sentir falta é pequeno, mas não menos doloroso.

A saudade não te deixa respirar. Não te permite trabalhar, te faz faltar o ar. Saudade é plural. Saudades é dos dois. Saudades é de você mesma, com os olhos brilhando. Saudades do frio na barriga, saudades do começo, saudade daquela cervejada idiota, do melhor dia dos namorados. Por isso, saudade pode ser inventada e falta não.

Falta é daquilo que não está ali, e que deveria estar. É a dor do banco do carro vazio, de assistir filme sozinha. A falta está na rotina, nas pequenas coisas concretas do dia a dia. Ela é pontual, mas pode aparecer todos os dias.

Saudades e sentir falta acontecem apenas quando o objeto da saudade ou da falta, parece estar ali, na beirada da sua vida. Ambas te fazem esticar o braço com força, com toda a sua força, o máximo que pode, para alcançar aquilo que já não está mais ali, que é sombra.

Talvez essas duas dores só sumam de fato quando ele sair da beirada. Quando o desenho do rosto dele não for mais tão nítido na minha memória, quando o som da voz dele não for mais tão claro em meus ouvidos. A saudade e a falta, de formas diferentes, com dores distintas, clamam por aquilo que mais se teme. A única solução possível é a mais temida, e serve para as duas: o esquecimento.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

diga que sozinha eu não preciso mais seguir


Eu quero tentar mais uma vez. Eu quero ir atrás, sem ter medo. Eu quero bater, eu quero entrar. Eu quero chegar mais cedo mais uma vez.

Cade você que não me vê? Quem é você que eu não vejo? Cade você pra me dizer que tudo isso vai passar?

Eu quero entrar na tua casa. Eu quero entrar na tua vida. Eu quero sentar e esperar você me mandar embora mais uma vez.

Cade você que me esqueceu? Quem é você que eu não esqueço? Quem é você que me prendeu, e depois me deixou pra trás?

Você sabe que sozinha eu não sei aonde ir.

É claro que você vai dizer que nunca soube o que eu queria. Que fica fácil pra você se agora já não vale o que passou.

Os teus amigos, meus amigos, não conseguem dizer nada. Os meus amigos, teus amigos, dizem que não sabem mais quem eu sou.

E eu não vou ficar te procurando onde eu posso encontrar alguém pra me mudar.

Diga que sozinha eu não preciso mais seguir.

sábado, 18 de setembro de 2010

ele completa ela e vice-versa

Ele nasceu 2 anos depois dela. Ela morava em uma cidade grande, e ele em uma pequena do interior. A melhor amiga dela antes de mudar pra cidade grande, morava na mesma cidade que ele. Ela fora pra lá algumas vezes com essa melhor amiga. Mas eles não se conheceram. Ela entrou na sorveteria por uma porta, e ele saiu por outra. Na feirinha da cidade do interior, ela estava com sua melhor amiga em uma barraquinha, ele estava em outra com sua mãe.

Ela entrou na faculdade na sua cidade grande, e dois anos depois ele prestou vestibular na mesma faculdade, e passou. Os dois estavam na mesma vestibalada, e disputaram o mesmo barman, mas não se conheceram. Ele entrou na livraria, enquanto ela saia da agencia de viagens. Na cantina ela sentou de um lado, e ele do lado oposto.

Assistiram a mesma sessão de cinema, obviamente separados. Se esbarraram no prédio onde ele morava, que por acaso ela tinha uma amiga que morava la também. Ele morava do lado da amiga dela, e eles não se conheceram.

Ele virou amigo da amiga dela, e então passaram a freqüentar a mesma casa. Ele percebeu ela, mas ela não notou ele. Trocaram idéias, emails e comentários em blogs, sem saberem que um era o amor da vida do outro.

Teve uma festa na casa dessa amiga, os dois foram, mas ele passou desapercebido por ela. Um dia ela foi estudar na casa da amiga, e ele foi lá depois pra assistirem um filme. E nesse dia algo conspirou e os colocou na mesma sintonia, e por uma porção de outras coisas ela viu ele. E eles se enxergaram um no outro, sentiram um ao outro.

E se amaram, e brigaram, e riram e foram ao cinema, e lutaram, e fugiram, e se esconderam, e se despediram, pois chegara a hora da partida inevitável. Beijaram-se com tanto carinho que era impossível não acreditar que se encontrariam novamente em breve. Mas não se encontraram.


quinta-feira, 15 de julho de 2010

e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar...



Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.

Mas não se engane, eu penso em você, todos os dias.
E não duvide, por favor, não duvide, nenhum dia sequer, que:
só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você

Música: O Teatro Mágico - O anjo mais velho