terça-feira, 1 de novembro de 2011

não tão trágico

Fala demais, essa menina que não tem o que dizer. Ri demais e não acha graça de nada. Por que o mistério, se ninguém quer saber da sua ideologia barata de gente sem futuro?

Pelo jeito sou só idéias perdidas que se revelam sem me pedir licença e depois se tornam contradições quando amanhece.

Gasto um repertório inteiro de palavras. É como conhecer todo mundo e não conhecer ninguém. Alguém vê atrás disso?

Que venha qualquer coisa fútil alegrar meu figurino, que seja brilhante, que seja inesquecível. Às vezes sou apenas um sopro de qualquer coisa doce e enjoativa com o pior dos venenos, fazendo com que minha presença seja ao mesmo tempo marcante, confusa, passageira e duvidosa.

Parece que ninguém desconfia do que resta pela manhã e talvez seja melhor assim. Uma espécie de proteção, como se essa superficialidade fosse só um rascunho do que um dia vou ter coragem de moldar. E a única dúvida que fica é o que realmente importa.

Talvez essa busca seja o único motivo pra eu ainda deixar as coisas como estão. Me acostumo a ser cenário e quando ganho personagem, acho pedir demais escolher o que interpretar.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

não faz sentido

Não consigo pertencer ou me adaptar. Falha minha. Meu único planejamento é não planejar. Porque o momento em que eu sei exatamente o que fazer ou onde ir, é o mesmo momento em que eu tento desesperadamente fazer o oposto. Talvez eu apenas goste de contrariar e negar o que parece ser certo.

Minha distância, que parece ser frieza, é apenas um mecanismo de defesa contra o que virá depois. Já me acostumei à desilusão. E a argumentação em favor do mundo não irá me ajudar. Estou desiludida de mim, dos meus impulsos, das minhas incapacidades, da minha falta de sentidos.

Não sou mais que mera alma a caminho de qualquer outro lugar. Não posso e não quero ser bagagem de ninguém. Estar presa na alfândega é um estado de espírito, e não um capricho meu.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

o que ninguém vê


Eu queria que houvesse uma maneira de existir sem me pesar. Ser e não doer.

Sou fragmentos do não-ser mal escolhidos. Meus impulsos podados resultam em um animal pequeno e amoado, que se esconde e se protege sem nem saber do que.

Que esse vazio me dói é nítido, e se mostra nos olhos tristes que o sorriso não disfarça, na lágrima recorrente que a maquiagem não segura. Percebe-se no meu discurso a falha tentativa de expressar com voz o que só sei dizer no papel.

Mas tem mais que isso dentro de mim. Tem um cansaço que só quer um colo pra se desfazer. Minha cura é um abraço. Dois braços, um coração e o que mais vier junto.


sábado, 3 de setembro de 2011

127 horas

Assisti ao filme '127 horas' com receio que a cena da amputação do braço, filmada com realismo, não faria bem para o meu estômago. Mas não foi o corte que me deixou pensativa, e sim a amputação.

Penso que o corte faz parte da solução, e não do problema. São cinco minutos de racionalidade, bravura e dor extrema, mas é também um ato de libertação, a verdadeira parte feliz do filme, ainda que tenhamos dificuldade de aceitar que a felicidade pode ser dolorosa.

Lógico que é improvável que o que aconteceu no filme aconteça conosco também. Mas metaforicamente, em muitos momentos da vida conhecemos experiências de ficarmos com um pedaço de nós aprisionado, imóvel, apodrecendo, e impedindo a continuidade da vida. Provavelmente todos nós temos uma grande rocha para mover, e não conseguindo movê-la somos obrigados a uma amputação dramática, porém necessária.

Estou falando de amores paralisantes, profissões que não dão certo, laços que tivemos que abandonar, traumas que causaram um vazio. As mutilações escolhidas, o toco de braço que temos que deixar para trás afim de começarmos uma nova vida. De tudo que é nosso, mas que tem que deixar de ser, na marra, em troca da nossa sobrevivência emocional. E física também, já que a insatisfação é algo que debilita.

Às vezes o músculo está estendido, espichado, no limite: há um único nervo que nos mantém presos a algo que não nos serve mais, porém ainda nos pertence. Fazer o talho machuca, dói de dar vertigem, de fazer desmaiar. E dói mais ainda porque se sabe que é irreversível. Que a parir dali a vida começará com uma ausência.

Mas é isso ou morrer aprisionado por uma pedra que não vai se mover sozinha. O tempo não vai mudar a situação. Ninguém vai aparecer para salvar-nos. 127 horas, 720 horas, 8.640 horas que se transformam em anos.

Acho que todos temos um cânion pelo qual nos sentimos atraídos e do qual precisamos escapar para continuar vivendo.


*Música: Legião - Há Tempos




quarta-feira, 3 de agosto de 2011

solidão a dois

Nasci para poucos e morro por ninguém além de você. Me confundo em passos de dança invisíveis, enlaçando pernas e fazendo caras e bocas, querendo muito e gostando pouco. Não é insatisfação ou sofrimento, é só um tudo-ao-mesmo–tempo-agora que não respeita amor de menos, não aceita um gostar pouco e querer às vezes. Uma intensidade que não se conforma com noites únicas de começo, meio e fim. Estou aqui pela música, pela companhia, pra me encontrar.

Eu quero mais de cada coisa que a existência oferece.

Essa prisão, essa pele. Estou vazando pelos poros e parece que vou explodir. E se algum buraquinho entupir e eu não achar a saída? Meu corpo é muito pequeno e minha procura pela liberdade queima as beiradas. Minha alma vai escapando e se moldando. Se esconde, diminui pra não se mostrar além.

Os risos forçados que geram lágrimas no travesseiro, as danças vazias que geram um vazio ainda maior. A mentira que preenche de ar o que devia ser companhia. A amargura que cresce por coisas pequenas e afáveis dos que são capazes da felicidade.

Eu não quero nada impossível. Só quero realidade. Quero alma e vida de verdade.


terça-feira, 5 de julho de 2011

lembranças machucam, as boas, mais ainda


Existem desgraças que quase esperamos na vida. E existem momentos sombrios, que mudam tudo. Existe a minha vida antes da tragédia. Existe a minha vida agora. As duas têm dolorosamente pouco em comum.

Gostaria de poder contar que, através da tragédia, descobri algum princípio absoluto, desconhecido e impactante que eu pudesse transmitir. Não foi o que aconteceu.

Os clichês são todos válidos - o que realmente conta são as pessoas, a vida é preciosa, o materialismo é valorizado demais, as pequenas coisas são que importam, viva o momento -, e posso repeti-los exaustivamente. Você pode até ouvir, mas não vai internalizar o que eu disser. A tragédia é pessoal. Ela fica gravada na alma. A gente deixa de ser feliz. Mas se transforma numa pessoa melhor.

É isso que as pessoas não conseguem entender, a fragilidade do mundo. As feridas que uma guinada do destino é capaz de abrir. O poço de desespero que somos jogados por causa de um descuido qualquer. A irreparabilidade das coisas.

O tempo cura a maioria das feridas. As demais ficam escondidas atrás da porta do esquecimento.


domingo, 5 de junho de 2011

felizes os esquecidos...

Percebo o peso das coisas que vivi quando sinto em minha mente a presença de cada vez mais pensamentos aos quais eu não consigo dar vazão. Nunca tive facilidade na hora de traduzí-los em parágrafos e, certas vezes, quando finalmente absorvo um assunto, sou atropelada pela urgência de uma vida que sou obrigada a viver, do abrir ao fechar dos olhos.

Muitas vezes abandonei em branco o texto, pois olhava para dentro de mim e nada via senão a nebulosa sombra do vazio que ainda grita alto.

Desabafar por escrito, mesmo que antes para um destinatário ausente, é confortante, justamente quando não me servem mais as opiniões sinceras. Me ver imperfeita e incapaz, e escrever sobre isso, é o que me impede de desmoronar.

Escrever torna tudo real. E, por isso, as vezes prefiro fugir dos fatos, do futuro, das afirmações lógicas, mas injustas. Tem dores que não devem ser verbalizadas. Tem dias que não devem ser escritos.

Tem um dicionário inteiro de termos não existentes para falar sobre mim. Não sei o que, não sei o motivo, não sei como. Não me importo. Apenas sou, e isso deve bastar.

Todos os sentimentos sinceros só são sinceros pelo tamanho da verdade, e pela vontade de dizer sem motivo e mil vezes.


Musica: Pink Floyd - Take it Back

http://www.youtube.com/watch?v=7LYfUtRSZ5I