domingo, 1 de abril de 2012

solidão

Ocupo todos os cantos da cama para deixá-lo fora do meu mundo. É o meu modo de esconder que na verdade eu só queria perder o cobertor para pés maiores que os meus. Dormir sozinha dá aquelas sensação de que o frio existe mesmo quando o termômetro marca 30 graus, de que os travesseiros são insuficientes e o espaço é infinito. Por dentro e por fora.

Ocupo todos os segundos do meu dia pra não deixá-los tomarem posse da solidão que cultivo como companheira. Sou dela, não tem jeito. Sou minha e não sei me dividir. Essa é só a maneira que eu aprendi a ser, porque pertencer aos outros faz doer.

Eu aceitei você e sua carga, sua falta; e nada disso foi suficiente porque você não pode ou não soube me aceitar. Você não pode carregar o que tem aqui dentro, esse peso que eu preciso dividir pra não ficar sobrecarregada por existir. Agora não sei mais. Não consigo aceitar nada pela metade e você não se permite ir além.

quinta-feira, 8 de março de 2012

exposição

Eu exponho meus sentimentos como numa vitrine, esperando que você aceite pagar o preço que nunca entra em liquidação. Mas quando você vem e quer me levar sem questionar a etiqueta absurda, eu só penso na futura devolução. Quero voltar pros vidros sujos, a exposição sem objetivos, ver todos os produtos indo embora e eu ficando mais uma vez. Esses rostos que me encaram, os olhos que brilham, as ilusões que se formam, as expectativas que eu deixo criarem, são minha vida. Depois disso só resta a rotina e o medo de estar perdendo a melhor parte.

Estou cansada dessa promoção de mim. Cansei de me entregar tanto e nunca me entregar por completo, de ser só a promessa, a vertigem e a decepção. E então esse cansaço que não sei se é dos outros ou de mim mesma.

Estou te mandando um aviso. Bilhete colado na porta da geladeira, telegrama, sinal de fogo, e-mail, não importa. Estou gritando seu nome na areia da praia, do alto da minha insanidade. Vem me salvar. Me leva embora. Prova que não é igual, que a compra não vai ter devolução no primeiro defeito, porque eu sou cheia deles. Me compra, me leva pra casa com tudo o que tem direito. Com medo, com mania, com falar demais e sentir de menos.

Por eu ser cheia de ter certeza de tudo, só quero que você me prove o contrário.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

sobre ir embora

Vai até a esquina, mas não solta da minha mão. Foge de mim, mas me busca nesse seu abraço maior que eu. Pode cortar meus assuntos, pode ficar vazio de repente. Eu sei que a culpa é só minha. Provoca minhas inseguranças, de tanto que eu já provoquei as suas. Pega meu ponto mais fraco e torce até sair minha última gota de orgulho. Esfrega bem na minha cara o que eu estou perdendo e o que pode ser que eu nunca mais tenha. O que eu não sei ter. Mostra que eu mereço ficar com um vácuo bem grande dentro de mim por não saber cuidar de uma coisa tão simples e tão pronta. Você não pede mais do que eu posso dar e mesmo assim eu sempre quero mais, quero menos, sempre quero diferente. Você não exige nada de mim, só quer minha existência e eu não sei nem existir pra você. Testa todo seu vocabulário monossilábico comigo. Testa meu limite pessoal, minha paciência, minhas paranóias. Acho que eu ainda não posso ser o que você quer de mim. Eu posso ser essa metade que não encaixa, mas sabe falar por horas e completar frases bobinhas. Só não me deixe morrer em você, porque em mim você vai continuar vivendo. Com seu abraço maior que eu, com suas falas que sempre me deixaram sem ação. Sendo alguém além do que eu sei ter. Não se afogue na tentativa de me deixar pra trás e não confunda me superar com me apagar. Não me apague nem me mate um pouquinho. Esquece o antes e o depois e refaz esse durante que eu gosto tanto. Eu só quero isso. Me conquiste todo dia, e queira me levar no final.

sábado, 28 de janeiro de 2012

perfeição

O mundo me prefere com dois braços e duas pernas, mas não sei mais ser humana. Sorrir cansa. Chorar cansa. Mas o que mais cansa é procurar desesperadamente um intermediário e esquecer que o mundo é mais que aparências.

Eu sou volúvel. Grande surpresa. Mas ser volúvel também cansa. Porque ninguém leva a sério alguém que passa a semana chorando pra ficar bem na semana seguinte. Como se fosse preciso ser feliz pra sempre ou triste pra sempre pra ser alguma coisa de verdade.

Não quero mais a realidade comum. Isso é o que mais cansa, pra ser bem sincera. Tenho até arrepios de pensar num futuro escrito e óbvio nas prateleiras de gente sem sal. Só de saber o que vai ser de mim, já quero ser outra coisa. Uma coisa nova e diferente, pra quebrar o que é certo.

Eu ando tão cansada de seguir as regras. Ando tentando mudar as regras. Eu sei que o que acomoda não é fácil de mudar, mas alguém um dia tem que dizer chega, pra assim as coisas mudarem, o mundo girar. Tanta engrenagem e tão pouco suor.

Acho que vou ter que fazer o que for preciso pra nunca mais precisar fazer nada. E passar o resto da minha vida fingindo que acredito na minha liberdade.


*Música: Adriana Calcanhoto - Senhas

http://www.youtube.com/watch?v=sxJYoHzAIww

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

voltas e voltas em lugar nenhum


Neste exato segundo em que o planeta Terra passeia pelo sistema solar, há uma infinidade de vidas que se iniciam e outra infinidade que chega ao fim. É natural. Talvez chegue um dia em que morrer será a exceção e o mundo atingirá sua lotação. Para isso existe a ciência, a medicina: evitar que a vida chegue ao fim. Viver alcança seu valor máximo. Tanta gente aprendendo a sorrir com conquistas, mas a maioria ensaiando o futuro. Não é o que eu quero. Quero mesmo é o presente. Cansei de me preparar para um dia que pode não chegar. Se existe vida no agora, eu vou encontrar.

Eu tenho essa urgência de viver, essa pressa de qualquer coisa que ultrapasse a inércia. É isso que me faz jogar dados ao acaso e me atirar de carros em movimento, é por isso que ando longe de viadutos. Meu suicídio diário não é uma forma de morrer. É uma tentativa desesperada de encontrar essa vida. É minha necessidade de viver que me mata.

Tenho a impressão de ter atingido o auge da minha maturidade, mas não tenho espaço físico ou moral pra existir nessa condição. Estou pronta pra largar tudo pra trás todos os dias, mas algo finca meus pés no chão sem aviso prévio. É preciso ser coerente pra ser aceito, mas como não me contradizer tentando achar um equilíbrio? Como não ser um pouco louca nesse mundo tão absurdo?

Não adianta me oferecer o discurso de estudos-emprego-família como verdade absoluta. A gente não aprende a viver sentado numa carteira de colégio. Saber organizar informações burocráticas em série e ser programado roboticamente não faz de ninguém um ser humano completo. A vida se aprende nas perdas. É perdendo a liberdade que a gente descobre que não se encaixa, é perdendo alguém que a gente descobre que não vale a pena lutar por futilidades, é perdendo o apoio que a gente descobre que o resto do mundo não para só porque nosso mundo parou. A gente vai aprendendo a viver assim, na marra, no grito, no sufoco, no impulso.

Eu quis mudar o mundo, quis ser brilhante, quis ser reconhecida. Hoje eu quero bem pouco e prefiro me concentrar no agora do que planejar um futuro incerto. Quero me libertar da culpa e dar de cara com algo novo. Não é justo perder as asas no momento em que se descobre tê-las. É preciso poder voar, é preciso ter uma visão estratégica das janelas. Ver o sol e não poder tê-lo é absurdo.

Então eu deixo algumas coisas passarem incompletas porque tenho consciência de que certas palavras ainda não têm tradução. Por mais que eu grite, vai ter quem não entenda ou não aceite. O que eu não aceito é ter nascido num mundo tão grande e conhecer só uma pequena parte .

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

bailarina

Estou perdendo a escrita. Vejo aos poucos as palavras me escapando do formato. Perco os argumentos, os artifícios, as idéias. Restam alguns conjuntos repetitivos de obrigações, quando o teclado me chama os dedos e, automático, escreve algo por mim.

Falo da vida como se fosse um verbo no passado, alguma coisa que costumava ser e hoje só me lembro. Falta tempo, falta apego, faltam laços e sobra essa mania de descrever o sentimentos dos outros que não sabem dizer.

O que houve com o tempo de ser fútil? Cade a leveza?

Eu tenho fobia de linha reta, tenho o corpo livre, o espírito solto. Sou do mundo, das novidades. Vou construindo fatos e lembranças a qualquer momento e lugar.

A vida lá fora gritou e eu não ouvi. Agora me movo a passos curtos, ziguezagueando por entre mudas de flores recentes que querem ser botão.

Eu quero ser flor, quero terra viva que se mova e me faça mover.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

atalho


Não me completo porque o que eu quero que seja meu já pertence aos outros, e porque todos já pertencem de alguma forma. Ninguém mais é virgem de alma. Carregam por aí paixões mal resolvidas, soluções mal apaixonadas, são metades vazias que não podem mais completar vida nenhuma.
Às vezes sinto que sou uma espécie de atalho, ajudo no caminho sem ser o ponto de chegada. Não sou destino, apenas distração. E acabo tendo um coração pisoteado que só pensa em se fechar para qualquer sentimento do mundo.

Eu tenho sono e já não consigo mais dormir. Eu tenho ânsia, não consigo mais comer. Eu tenho medo e já não quero mais. Meus pés perderam a função básica de equilibrar meu corpo na minha existência. Não posso dizer que a culpa é física porque fui eu quem sobrecarreguei minha mente e me tornei incapaz de responder sobriamente por um ''tudo bem?''. Isso pesa. É pesado saber que não está nada bem.

Percebo no espelho que meu sorriso não chega aos olhos.


*Música: Los Hermanos - Sapato Novo